PT

A obsessão totalitária

A Veja de hoje traz uma importante e corajosa matéria sobre "a obsessão de petistas de abolir a liberdade de expressão no Brasil." A leitura é importante para quem já entendeu e fundamental para quem finge que não entende, pelos mais diversos motivos.
 
Antes que se tente demonizar a Veja por isso, tática usual da tropa de choque petista, é importante lembrar que ela assumiu o mesmo tom que os grandes jornais do país em seus editoriais, do "direitista" Estadão até a "esquerdista" Folha de S. Paulo, todos foram unânimes em denunciar a tara fascisóide de uma parte do primeiro escalão do governo Lula nos seus estertores.
 
Sempre que vejo os "observadores ingênuos", como diz a matéria, tentando diminuir a sanha autoritária dessa turma que está no poder, lembro do divertidíssimo filme "Marte Ataca!" (Tim Burton, 1996), especialmente da Barbara Land (Annette Bening), uma "idealista" que resolveu esperar os marcianos de braços abertos. Se você não viu o filme pegue já, é diversão garantida.
 
Sem querer bancar o spoiler (o título do filme já entrega o que os marcianos vieram fazer aqui na Terra), é curioso ver como os alienígenas vão chegando e, a despeito de todas as evidências, as pombinhas da paz (o que inclui jornalistas e acadêmicos) se recusam a ver as reais intenções dos invasores, enquanto os únicos a querer combatê-los são os militares, vistos como paranóicos belicistas.   
 
O discurso de Barbara Land:
 

 
A matéria da Veja pode ser lida aqui.

Ferreira Gullar em 2005: "Lula versus PT"

O blog do Antonio Cicero trouxe um texto importante para o debate, escrito pelo poeta e militante comunista histórico Ferreira Gullar. Mesmo na outra margem do rio ideológico, sou leitor e admirador dos textos políticos deste maranhense que, como seu conterrâneo que preside o Senado, também se chama José Ribamar.
 
De todos que li na sua coluna da Folha de S. Paulo, o mais preciso e perspicaz que conheço foi "Lula versus PT", escrito em 2005, no auge do escândalo do mensalão, o qual reproduzo, na íntegra, aqui:
 
 
Lula versus PT
 
06/07/2005
 
Ferreira Gullar
 
A esta altura dos acontecimentos, fico me perguntando o que aconteceu com essa ala da esquerda chamada Partido dos Trabalhadores. Como bom virginiano, não paro de esmiuçar as coisas que me dizem respeito e aos demais, como é o caso do destino desse partido que nasceu como um aceno de esperança e renovação da política brasileira e, agora, tendo assumido o governo do país, revela-se uma decepção.
 
Nunca pertenci ao PT, mas, no momento em que ele nascia, defendi-o de alguns companheiros do PCB, que viam nele uma ameaça à luta pelo socialismo. Temiam que se tratasse de um embuste que poderia arrastar os trabalhadores para uma aventura desastrosa. Eu respondia: "Nós, em quase 60 anos, não conseguimos conquistar a maioria da classe operária. Vamos deixar que eles tentem".
 
No final da década de 70, a ditadura fazia água. O Partido Comunista, aliado a setores do MDB, viu que chegara a hora de isolá-la, chamando para a luta o empresariado que já dava demonstrações de descontentamento. A gente sabia que o golpe militar ajudara a burguesia a sair de seus impasses, mas que o seu regime ideal é a democracia, que lhe permite atuar livremente. Marcou-se um ato público, no teatro Casa Grande, no Rio, para consolidar a aliança das esquerdas com o empresariado e se convidaram figuras empresariais de prestígio ao lado do jovem líder operário Luiz Inácio da Silva, o Lula. Veio com ele, entre outros, um intelectual chamado Francisco Weffort, que quase entornou o caldo: resolveu cobrar de público a colaboração do empresariado com os torturadores da Operação Bandeirantes. Levamos um susto, mas, felizmente, alguém se levantou e desautorizou a cobrança inoportuna. Esse era o tipo de gente que rodeava Lula e que deu origem ao PT.
 
Havia outros, entre os quais José Dirceu, Genoino, Frei Betto, quase todos caracterizados por uma visão radical, gente que participou da luta armada ou a apoiou. Gente antipartidão. Esse era um dos traços mais típicos desse grupo. Pois bem. Um mês após o golpe de 1964, o PCB lançara um documento afirmando que o caminho para derrotar a ditadura era a luta pelas liberdades democráticas. "Ocupemos todos os espaços que nos permitam organizar e conscientizar o povo", dizia o documento. Mas, dentro do próprio partido, havia quem apostasse na luta armada e que tentou me aliciar. Respondi que não teria sentido deslocar a luta para o terreno militar, onde a ditadura era mais forte. Embora, em 1979, a luta armada já tivesse sido derrotada, o radicalismo persistia na cabeça daquele pessoal.
 
Lula nunca foi de esquerda, como ele mesmo afirmou recentemente. Era um líder sindical carismático, inteligente e hábil -o homem que faltava para os derrotados da luta armada, que só tinham idéias, mas não tinham povo. Já Lula, que tinha povo, não tinha idéias que lhe permitissem tornar-se o chefe de um partido político. Juntou-se a fome com a vontade de comer: nasceu o PT.
 
Assim, o PT -se meu raciocínio virginiano estiver correto- é fruto de um acordo tácito entre duas coisas heterogêneas, mas afins: a ambição política de Lula e a visão revolucionária da esquerda radical. Lula se imaginou um Lech Walesa sul-americano, mas os seus novos companheiros -todos barbudos- imaginavam-no um Fidel Castro. Ele, ladino, deixou crescer a barba também.
 
E eis que, finda a ditadura, Lula é eleito para a Assembléia Nacional Constituinte, mas, pouco afeito à elaboração de leis, mal aparece lá. Pronta a nova Constituição, dispõe-se a assiná-la, mas o PT o impede: não aprovava aquela Constituição burguesa.
 
Não obstante, na primeira eleição direta para a Presidência da República, Lula se candidata, disputa com Fernando Collor e perde; nas eleições seguintes, candidata-se de novo, disputa com Fernando Henrique Cardoso e perde de novo. Em ambos os casos, não chega a 30% dos votos válidos. Mas o PT elege deputados que fazem uma feroz oposição ao presidente eleito. Em 1998, nova eleição para presidente, Lula disputa outra vez com Fernando Henrique e é outra vez derrotado. Ao se aproximarem as eleições presidenciais de 2002, muda de atitude.
 
- Se for para perder de novo, não me candidato.
 
Era um recado ao PT que, traduzido, significava o seguinte: só me candidatarei de novo à Presidência da República se não tiver que me submeter ao programa radical do partido nem às alianças estreitas com os pequenos partidos de esquerda. O velho acordo Lula-PT tinha chegado a seu limite, uma vez que a imposição dos radicais, submetendo Lula a sucessivas derrotas, tornara-se intolerável para ele. Ou o PT reduzia seu radicalismo, ou não haveria candidatura. A cúpula petista radical recua, Lula busca aliança com o PL e muda o discurso eleitoral. Nasce o Lula bom moço, sorridente, que não quer briga com ninguém -e ganha as eleições.
 
Empossado, tem que impedir que o radicalismo petista ponha tudo a perder: mantém a política de FHC e nomeia um banqueiro e dois empresários para os ministérios fundamentais. O PT, por sua vez, ocupa a máquina estatal e compra deputados para não abrir mão do aparelhamento. Eclode a crise que desmoraliza o PT e, teoricamente, liberta Lula. Cabe, porém, perguntar: existe o PT sem Lula? Existe Lula sem o PT?

Esquerda, volver

Apesar das aparências, não acho a menor graça na tal saia justa que querem fazer crer que o PT esteja passando ao colocar seu bigode mais proeminente do senado para defender o bigode maranhense, além de toda sua força na imprensa para parecer que há qualquer mérito nisso, uma tal defesa da governabilidade ou qualquer outra impostura cínica da mesma lavra.
 
Para qualquer um que ache o PT no poder um mal para o país, um atraso, um retrocesso, um ataque à institucionalidade, à democracia e à independência entre a gestão pública e o interesse privado de um partido, uma incursão mesmo que lenta e gradual no bolivarianismo, na irresponsabilidade fiscal e na hipertrofia do estado, tudo isso aliado ao mais desavergonhado assistencialismo coronelista, a recente prova de obediência bovina da tropa de choque e da militância nas redações e nos blogs alinhados às orientações do Aiatolá de Caetés na operação abafa para blidar José Sarney são mais uma prova da capacidade única do partido em marchar na mesma direção.
 
Desde o silêncio obsequioso dos seus anjos caídos até a anuência cínica dos seus próceres, a ordem unida baixada esta semana deveria servir de alerta ao que se convencionou chamar de oposição no Brasil, aqueles trouxas que, entre outras, apoiaram Tião Viana para a presidência do senado: enquanto se debatem numa fogueira de vaidades que remonta à primeira eleição de Lula em 2002 e que promete seguir até a mais importante eleição desde a redemocratização, que acontecerá no ano que vem, o PT e sua base alugada andam num passo cadenciado, forjado no fisiologismo e no pragmatismo, para uma vitória arrasadora, elegendo um poste lulista e praticamente calando qualquer arroubo de resistência.
 
Dilma deu um grande passo para sua eleição ao apoiar Sarney e está cada vez mais perto da vitória, salvo algum tsunami político que ainda não deu qualquer sinal de que aparecerá. A partir da sua vitória, instala-se um tipo de hegemonia que só se viu no continente com o PRI mexicano, que montou um simulacro de democracia e ficou 70 anos no poder.
 
Depois não digam que não foram avisados.
 

FHC, por que não te calas?

Fernando Henrique Cardoso é conhecido por suas declarações estapafúrdias e que, não raro, constrangem qualquer brasileiro com um mínimo de vergonha na cara.
 
Seus pendores anti-democráticos e messiânios, seu coronelismo de segunda mão, sua vulgaridade macunaímica, tudo é cinicamente ignorado pela imprensa, pela grande maioria dos analistas políticos e pela burritsia acadêmica, que enxergam até algum mérito ou charme em suas diatribes. Por mais que FHC se esforce em lembrar a todos, regularmente, que sua agenda é muito mais próxima de seus pares bolivarianos do que se admite, sua popularidade tem servido de escudo para a absoluta destruição da discussão política no país e de um mínimo exercício de oposição.
 
Em visita ao Cazaquistão, o presidente FHC saiu em defesa de José Sarney, o imperador do Maranhão, estado que está na zona de rebaixamento em todos os campeonatos de desgraças nacionais: IDH, analfabetismo, renda per capita, saneamento básico, mortalidade infantil ou expectativa de vida, todos com indicadores em níveis subsaarianos. Mesmo sendo um estado com recursos naturais abundantes, clima favorável e do tamanho da Itália e da Alemanha, o Maranhão é uma perfeita tradução do que figuras como José Sarney podem fazer para manter o nordeste na Idade Média.
 
Fernando Henrique disse que as denúncias contra Sarney são culpa da imprensa e que o ex-presidente não poderia ser tratado "como uma pessoa comum". Só mesmo um típico representante das elites para dar uma declaração preconceituosa e arrogante como essa, de corar até Maria Antonieta.
 
Para o presidente falastrão, não se pode investigar Sarney, Renan Calheiros, Severino Cavalcanti e, principalmente, a Petrobras. Quando estava na oposição, era aquele vale tudo terrorista, torpedeando diariamente a construção da estabilidade econômica que acabou por viabilizar o período de crescimento em seu próprio governo. Ele mesmo já classificou o que fazia na oposição como "bravata", mas hoje acredita que não se deve investigar mais nada.
 
Aguardo ansiosamente os artigos com os repúdios veementes de Luís Fernando Veríssimo, Josias de Souza, Gilberto Dimenstein, Kennedy Alencar, Elio Gaspari, além dos blogueiros de sempre, contra mais essa declaração ordinária, vulgar e vagabunda do presidente-sociólogo. Fora FHC!
 

Nasce uma estrela vermelha

Esse vídeo é um achado. Nele, o líder do Sintusp e da greve que conflagrou a USP, Claudionor Brandão, ligado à Liga Estratégia Revolucionária - Quarta Internacional, dá sua contribuição única para o debate político e para a academia brasileira, esse orgulho nacional que tantas idéias inovadoras ofereceu à humanidade.
 
É um "homem do povo", forjado no sindicalismo, que sonha com um "outro mundo possível". Suas idéias "progressistas" mostram que tem consciência social e é um companheiro de luta, engajado até na questão palestina, contra o império. Se Obama o conhecesse, não pensaria duas vezes em chamar o camarada de "o cara" e sugerir seu nome para o Nobel da Paz.
 
Numa semana em que o eleitor europeu preferiu os monstros capitalistas para cuidar da crise e da retomada do crescimento e não os fraternos e solidários estatistas (ou socialistas), é curioso ver o Irã dando mais um mandato ao companheiro Mahmoud Ahmadinejad e a América Latina mergulhando cada vez mais na onda vermelha. Nada é por acaso.
 
Ao ver o vídeo, fica claro que outra grande liderança política genuinamente brasileira pode estar despontando para 2010, aplaudido pela claque que grita histericamente "viva o Hezbollah". Abre o olho, Serra!
 
 

A prova de que o PT é democrático

Acabo de almoçar com meu grande amigo Luiz Ryff, do Nonsense, e ele me deu uma das frases do ano:
 
"É fácil o PT provar que é democrático, que não tem uma visão autoritária do poder. É só ver como o partido vai se portar ano que vem se estiver atrás do Serra nas pesquisas ou se perder a eleição e tiver que devolver o poder pacificamente."
 
O PT não tem planos de largar a rapadura e não medirá esforços para continuar agarrado, como craca em casco de navio, a essa fonte inesgotável de dinheiro que é o governo brasileiro, suas estatais, fundos de pensão, ONGs e afins. Em 2010, um inédito espetáculo de baixarias se anuncia.
 
Quem mora boa parte do ano em São Paulo como eu sabe como foi a campanha da Marta Suplicy ano passado e, entre tantas baixarias, a tentativa torpe e covarde de "desqualificar" o prefeito Gilberto Kassab por ser gay (o que ele nega). Justo ela que se dizia, como sexóloga, amiga e defensora dos direitos dos homossexuais, grupo que não costuma ter muitas regalias em governos comunistas. O filme é quase uma cópia pirata do comercial "Hitler", feito para a Folha de S. Paulo pela W/Brasil no final dos anos 80. 
 
Se você não viu o comercial, é sempre bom relembrar como o PT pode reagir quando se vê a ponto de perder uma eleição municipal e, claro, pode começar a imaginar como será quando acharem que a eleição presidencial pode não ter o resultado esperado.
 

Feliz 1950!

O governo comemorou ontem, em comício, a extração de uma garrafa PET de petróleo na camada pré-sal, ressuscitando todo estoque de bravatas varguistas que a esquerda brasileira possui e que explicam, em parte, porque os últimos 50 anos foram praticamente perdidos aqui em Retrogrado. O 1º de maio é uma data especial para a Petrobras no governo Lula, já que foi neste dia, em 2006, que o exército boliviano, numa ação militar comandada pessoalmente pelo cocaleiro Evo Morales, invadiu e desapropriou duas refinarias da empresa.
Todos os governos de meio século para cá, em maior ou menor grau, mostraram simpatia pelas teses nacional-desenvolvimentistas do varguismo, das quais o PAC é um neto roliço, preguiçoso, perdulário e mimado, mas que é a cara do vovô. O PAC é tão parecido, por exemplo, com as políticas econômicas e de obras do governo Médici que até o Delfim Netto, inspirador de ambos, é o mesmo. Não por acaso, fala-se até em recriar a Sudam e a Sudene.
Lula classificou no discurso o momento como a "segunda independência do Brasil" e usou como modelo de conduta ninguém menos que Saddam Hussein, que nos anos 70, ao descobrir uma das maiores reservas do planeta no Iraque, rasgou contratos e mandou todo mundo passear, o que incluiu a Petrobras. É um belo aceno para quem pensa em investir no Brasil, em tempos de capital escasso e arredio mundo afora.
O fato é que a exploração da camada do pré-sal era apenas uma quimera quando o petróleo estava com o preço do barril na estratosfera até o ano passado, mas que agora, com a cotação do barril a 50 dólares, é simplesmente uma bobagem que pode custar muito, mas muito caro, ao Brasil.
Não há um único técnico sério no mundo que possa hoje responder definitivamente às seguintes perguntas:
- Quanto custará a exploração, para fins comerciais e não para fotos em palanques, do petróleo na camada pré-sal?
- Quanto custará o preço do barril extraído? Esse preço será economicamente competitivo?
- Qual equipamento será utilizado para a exploração? Quantos anos serão necessários para desenvolvê-lo?
- O mundo, em 2015, ainda comprará petróleo na quantidade que compra hoje?
- Os bilhões a serem investidos nas pesquisas, num período mínimo de 7 a 10 anos antes de se iniciar a produção em escala comercial, não poderiam ser utilizados na busca de fontes de energia renováveis e limpas?
- Qual é o papel do biodiesel agora?
A imagem de Lula com a mão suja de óleo pode ser uma boa metáfora do seu governo, mas é, até o momento, uma péssima opção econômica.

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