Imprensa

O Brasil precisa é de um Saturday Night Live

Não existe uma resposta fácil para a chamada crise da grande imprensa, especialmente a americana, mas há indícios de algumas das suas origens. Quando é preciso um programa humorístico para dar a senha e dizer "sim, nós podemos criticar", fica claro que há algo de muito errado em como alguns dos principais veículos do país tratam Obama e porque as emissoras mais independentes, como a FOX News, não param de crescer (post anterior sobre o assunto aqui).
 
O SNL é um dos programas mais antigos do mundo no ar, sendo transmitido semanalmente na TV americana desde 1975, e o grande celeiro de humoristas do país. Minha relação com o programa vem da adolescência, nos anos 80, quando um tio que morava nos EUA trazia os episódios gravados em VHS. O que mais me impressionava na época e ainda impressiona é a falta de cerimônia e a liberdade com que os humoristas tratavam os políticos e celebridades, uma marca que continua dando sinais de vitalidade depois de tantos anos.
 
Ano passado, por exemplo, o SNL se aproveitou da semelhança física entre a ex-governadora Sarah Palin e a atriz Tina Fey para passar meses e meses pegando no seu pé e criando uma caricatura que entrou para a história da TV. A vice da chapa republicana chegou a ir ao programa, como o próprio candidato John McCain, ironizando sua falta de dinheiro para a campanha.
 
A CNN classificou o último episódio do SNL como o "fim da lua-de-mel" do programa com o presidente, mas o que aconteceu foi muito mais do que isso. Na cena mais comentada, o comediante Fred Armisen, que encarna Obama, está fazendo um pronunciamento à nação, reconhecendo que praticamente nada do que prometeu foi cumprido, com direito a um check-list em computação gráfica. Uma desmoralização.
 
Quando um programa humorístico que sempre foi simpático à Obama tem que fazer uma lista de promessas não cumpridas do presidente é porque a imprensa não está fazendo o seu trabalho e, em relação ao presidente, não estava mesmo, com honrosas exceções. Dada a senha, é provável que agora os jornalistas comecem a se sentir levemente desobrigados a continuar embarcando na canoa democrata e, enfim, comecem a trabalhar.
 
O Brasil, uma democracia em outro estágio evolucionário, vai estrear em breve um filme chapa-branca sobre a vida de Lula, talvez o mais caro já feito no país. O próprio presidente está empenhado em levar sua peça de propaganda para o interior do país, em pleno ano de eleição, numa espécie de caravana do proselitismo e da propaganda em mais um estupro da lei eleitoral patrocinado por ele, dentro da estratégia messiânica de culto à personalidade que caracteriza os populistas.
 
Quanto tempo a popularidade de Lula resistiria a um bom programa humorístico que pegasse no seu pé de verdade, sem qualquer excesso, apenas mostrando quem ele realmente é? Quanto tempo seus factóides, suas bravatas, suas alianças e seus métodos continuariam intocáveis se houvesse um único comediante talentoso rindo de Lula e não dizendo que Deus está com inveja dele, como José Simão, o mais petista de todos, disse essa semana?
 
O Saturday Night Live está há quase 35 anos no ar e, neste tempo todo, ajudou os americanos a entenderem que políticos devem ser mesmo expostos para que possam ser despidos dos mitos criados pelas campanhas eleitoriais, da propaganda estatal, do proselitismo dos jornalistas adesistas, e se mostrem tão patéticos, erráticos, mentirosos e ridículos quanto são na vida real.
 

O show da Veja

Essa semana, a maior e mais importante revista do Brasil, quarta maior do mundo, estava tão boa que deu vontade de pagar a assinatura novamente.
 
É incrível imaginar como essa publicação consegue se manter fiscalizando tão duramente os governos brasileiros e se colocando contra as diversas facetas do castrismo e do narco-bolivarianismo há 40 anos. A Veja é uma lição para a corja de adesistas que insistem em bajular governos, estatais e companheiros em troca das migalhas que caem dos pratos do poder.
 
Claro que nem todos os bajuladores são vendidos, muitos são apenas esquerdistas de butique, que dormem mais felizes ao saber que uma das maiores cargas tributárias do planeta vira esmola estatal para os miseráveis, numa espécie de terceirização da moedinha que se dá no semáforo. Acredito mesmo que muitos não conseguem sequer imaginar como as centenas de bilhões de reais arrecadados em impostos poderiam revolucionar o país nas mãos da sociedade, dos empreendedores, empresas e profissionais liberais, assinando um dos maiores cheques em branco do planeta para Lula, Sarney, Lobão, Renan, Wellington Salgado, Fernando Collor, Romero Jucá, Ideli Salvatti, Tarso Genro, Dilma, Ciro Gomes et caterva.
 
Logo nas páginas amarelas, uma entrevista com Roberto Michelletti, hoje o maior símbolo da luta contra o estupro das Constituições nacionais pelos narco-bolivarianos, além de uma cobertura fantástica da situação em Honduras. Mas não é só isso. Há também um artigo do Diogo Mainardi chutando a canela de Eike Batista, o homem mais rico do Brasil e que colocou uma página dupla de anúncio na mesma edição, mostrando uma independência inimaginável em qualquer outra publicação brasileira. E muito mais.
 
A Veja é um oásis de independência num mar de puxa-saquismo, mesmo considerando seu centrismo radical (algo que irrita qualquer direitista de carteirinha). Seus erros, mínimos, não se comparam à sua coragem editorial e seus acertos. Veja é normalmente perseguida e patrulhada pelas suas qualidades, não por seus defeitos. Que continue resistindo, bravamente, aos ataques das forças do atraso e dos zumbis ideológicos.
 
 

E a raposa venceu

 
Barack Obama foi eleito presidente por 67 milhões de americanos (53%) contra 58 milhões de eleitores de John McCain (46%). Rupert Murdoch, na época, foi perguntado se isso significaria uma perda de audiência para a FOX News, uma das empresas do seu grupo de comunicação e que é rotulada pela esquerda como mais simpática aos republicanos: “É claro que não!”, respondeu. “Quem dará voz a quase metade do eleitorado do país que não votou em Obama?”
 
Com 200 dias de governo Obama, já é possível checar sua previsão. Nesta noite de quarta-feira, o apresentador e comentarista Bill O’Reilly, da FOX News, não só manteve a liderança como conseguiu uma audiência maior do que CNN, MSNBC, Headline News e CNBC somadas, consolidando uma liderança que é dividida com muitos de seus companheiros de emissora em seus respectivos horários.
 
Bem ao seu estilo, O’Reilly não deixou passar em branco a conquista e tripudiou, no ar, de seus concorrentes, dizendo que eles estavam colhendo os frutos do tratamento discriminatório que dão aos opositores de Obama, especialmente quando o assunto é a reforma do sistema de saúde, o pacotaço trilionário que tanta polêmica vem despertando no país. É realmente chocante ver os adjetivos escolhidos pelos repórteres da CNN ou da MSNBC para descrever os opositores ao plano e, para o bem da imprensa americana, eles estão reagindo e mudando de canal.
 
A imprensa americana, em sua grande maioria, aderiu vergonhosamente ao governo Obama, de uma maneira tão descarada que lembra, tristemente, o que aqui no Brasil se convencionou chamar de jornalismo político. E a FOX News foi ridicularizada por seguir seu próprio caminho.
 
A FOX News é uma emissora com qualidade e defeitos, como qualquer outra, e muitos de seus apresentadores e comentaristas, alguns oriundos do rádio, têm evidentemente uma tendência mais conservadora, o que lá significa representar uma parte enorme da população, talvez a mais identificada com os valores que construíram a maior potência do planeta ao longo dos séculos.
 
Até a esquerda mais empedernida e radical reconhece que a entrevista que Obama deu a Bill O’Reilly na campanha foi talvez a melhor dada pela candidato e que claramente ajudou o democrata a ganhar eleitores entre os conservadores, algo inimaginável para qualquer opositor de Lula em grande parte da imprensa nacional, mesmo considerando que o nome mais importante da oposição hoje é um governador de centro-esquerda, ex-presidente da UNE e exilado da ditadura, um político ideologicamente a anos-luz do que se pode chamar de "direita".
 
Tanto a FOX News quanto os republicanos mandam uma mensagem aos nossos políticos da oposição: quanto mais popular o presidente, mais você deve mostrar com contundência seus defeitos, suas contradições, suas mentiras, desconstruindo o mito e abrindo espaço para uma proposta alternativa de governo.
 
É uma tática que dá certo no longo prazo, mas requer uma dose cavalar de coragem, disposição e resiliência para nadar contra a maré durante meses, senão anos. Alguém na oposição brasileira se habilita?
 

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