EUA
Uma lição de democracia
O eleitorado de Massachusetts, estado tradicionalmente democrata, colocou um republicano na simbólica cadeira de Ted Kennedy no dia do primeiro aniversário de Barack Obama como presidente e, de quebra, tirou a "supermaioria" do partido no senado. Um terremoto político de grandes proporções.
O senador eleito Scott Brown, um ilustre desconhecido até agora, é um republicano típico: tenente-coronel, casado, pai de duas filhas, esportista, cristão e conservador (no sentido americano, claro). Ele saiu bem atrás nas pesquisas, mas fez uma campanha impecável e virou o jogo de uma maneira realmente empolgante. Para se ter uma idéia da complexidade da tarefa de Scott Brown, apenas 12% dos eleitores do estado de Massachusetts se declaram republicanos.
Pesquisas mostram que o eleitorado de Massachusetts não deixou de simpatizar com o presidente, mas a mensagem aos medalhões democratas no Congresso, como Nancy Pelosi, foi clara: a eleição de Barack Obama não é um cheque em branco para seu partido, especialmente para a tão polêmica reforma do sistema de saúde.
Para muitos democratas e seus simpatizantes na grande imprensa, a derrota de John McCain, candidato de George W. Bush, um presidente impopular no final do mandato, era um sinal de que o povo americano passava também a rejeitar a agenda dos conservadores, tão identificada com o partido republicano, de um país que sabe suas prioridades quando o assunto é segurança nacional, liberdade individual ou o tamanho e a qualidade dos gastos do governo. Ontem estes democratas receberam uma dura mas necessária e oportuna lição.
Este ano, após a vitória de Obama, muitas lideranças democratas no Congresso começaram a agir com tamanha arrogância e soberba que o eleitor percebeu o erro de dar tanto poder a um partido apenas e começou, com muita sabedoria, a equilibrar o jogo. Só em repúblicas de bananas um governo ter o controle total do Congresso é visto como algo positivo, ainda mais quando a moeda de troca é exatamente dinheiro público, ministérios e diretorias de estatais que furam poço. Pior ainda é quando a imprensa local diz que tudo se justifica pela busca da "governabilidade". Temos muito o que aprender.
O INSS mais caro de todos os tempos e uma luz no debate
O âncora Wolf Blitzer da CNN conduziu esta semana um painel sobre o assunto que mais apaixona e inflama os americanos hoje, o pacotaço trilionário do governo Obama sobre a área de saúde.
O país está longe de um consenso minimamente razoável sobre o assunto e uma parte considerável do próprio Partido Democrata, como o grupo conhecido com os "blue dogs", tem sérias dúvidas sobre o plano apresentado e sobre a maneira açodada com que sua tramitação tem sido conduzida no Congresso.
Segundo uma pesquisa divulgada pela própria CNN na semana passada, 50% dos americanos apoiariam a proposta e 45% seriam contrários, especialmente os que têm mais de 50 anos de idade. Dos americanos com planos de saúde privados, a esmagadora maioria (80%) se diz satisfeita e sem qualquer intenção de mudar, a despeito do que pode parecer em panfletos como os do embusteiro número um do país, Michael Moore.
É assustador para parte da opinião pública ver o tamanho da conta apresentada e como ela coloca em risco real e imediato outro tipo de saúde, a já combalida saúde fiscal da maior economia do planeta. O pacote é uma iniciativa com forte sotaque estatista e dirigista, dando fôlego aos que vêem em Obama um presidente quase socialista - e lá isso não é nem de longe um elogio.
A adesão de Wolf Blitzer à proposta do governo é perceptível em todas as suas intervenções, como era de se esperar. Mesmo com a popularidade em queda livre, Obama ainda é uma vaca sagrada para a grande maioria da imprensa local (da internacional, nem se fala), o que mostra que a genuflexão de jornalistas de esquerda (perdoem o pleonasmo) a governos com agenda estatista não é privilégio apenas de repúblicas de bananas.
O melhor momento do debate, que pode ser visto aqui, não veio do estrategista democrata James Carville, conhecido por frases como "é a economia, estúpido", que marcou a campanha de Bill Clinton em 1992, ou do ator e ativista conservador Ben Stein, mas do comediante e "libertário" Penn Jillette, da dupla Penn & Teller.
Jillette vinha argumentando com muita propriedade sobre os riscos da gigante ingerência governamental na vida do cidadão comum, dos riscos envolvidos em tamanha concentração de poder nas mãos do estado, quando Blitzer, um soldado leal à causa, interrompe o ator e pergunta, com tom grave e professoral de quem, como Obama, quer rotular os céticos como monstros insensíveis: qual seria então a responsabilidade da sociedade em relação ao acesso de todos americanos ao sistema de saúde?
A resposta de Penn Jillette resume conceitualmente não só o que é um dos fundamentos da democracia americana mas também ajuda a desnudar a tática preferencial dos comuno-fascistas, que é a confusão nada acidental entre governo e sociedade, público e privado, partido e povo, presidente e população:
- "A responsabilidade da sociedade é total, o que está em debate é o papel do governo nisso tudo."
Os EUA não são a única superpotência do planeta por acaso. Jillette, um sujeito de 2 metros de altura, é também um gigante no entendimento do que é democracia. Mesmo não sendo um entusiasta da causa libertária, reconheço que muitas de suas posições merecem aplausos tão vigorosos quanto os que Jillette recebe em seus shows em Las Vegas.
América for Dummies
Quem tem uma visão estereotipada e botocuda dos EUA, em parte construída por décadas de hegemonia esquerdista e antiamericana na imprensa e na academia do terceiro mundo, acaba de ficar com uma desculpa a menos: a ignorância.
Ontem vi uma obra prima que fecha com louvor uma carreira brilhante, a de Clint Eastwood, um filme tão maduro e sábio, ao mesmo tempo tão sutil, sensível e econômico em termos de recursos narrativos, que me deu a impressão que Dirt Harry está na décima encarnação, uma espécie de Dalai Lama ocidental só que com uma 45 na mão e cuspindo no jardim.
Poderia ficar horas falando do filme mais “republicano” ou “conservador” que vi nos últimos anos, o que é mais um ato de coragem em tempos tão “democratas”. Eastwood é historicamente ligado ao Partido Republicano e só seu incrível talento e determinação para explicar como conseguiu construir uma carreira no lugar que é a maior concentração de militantes do partido democrata do planeta: Hollywood. Vendo o filme fica mais claro porque Eastwood e Hollywood continuam rimando.
Não vou bancar o spoiler e dar dicas de como o filme se desenrola ou termina, mas ele é sem dúvida uma bela alegoria de como a América do meio-oeste está hoje, lidando com um país diferente do que imaginou nos anos 50, mas também e principalmente como seus ideais são permeáveis aos novos tempos e como ainda são necessários para balizar diversos conflitos, separar o joio do trigo e não jogar fora tudo que o ocidente conquistou com sangue, suor e lágrimas.
O filme é protagonizado aparentemente por um velho rabugento e racista, mas você verá, ao final, uma das peças mais anti-racistas que já vi, acima das respostas fáceis ao tema. Grand Torino é uma maneira surpreendente da América republicana se explicar, confessando pecados, apontando os pecados dos outros sem qualquer cerimônia e bem ao seu estilo, e estendendo a mão à nova América multicultural, que não é necessariamente melhor, mas é a dura e crua realidade.
Walt Kowalski, o personagem principal, percebe o desfecho inevitável e resolve se colocar, mais uma vez, a serviço do que acredita ser o sonho americano. Ele não está se negando a “entregar seu país” aos novos americanos, apenas pede que não se faça mau uso dele e de tudo que construiu, pelo bem de todos, inclusive deles mesmos.
Um momento “for Dummies” do filme, por exemplo, é quando Walt está lavando o rosto no banheiro da casa dos vizinhos (é o dia do seu aniversário) e, ao começar a conviver de perto com eles, diz a si mesmo, surpreso: “eles têm mais em comum comigo do que a minha própria família”. Só vendo o filme para enteder como ele percebe isso, mas muito do filme pode ser explicado nessa cena.
Você verá de tudo na família Hmong vizinha (parte do filme é, inclusive, falado em Hmong), dos primos delinquentes aos ritos exóticos, da hospitalidade de uns aos mesmos preconceitos xenófobos de outros, como a avó rabugenta que espelha brilhantemente o personagem de Eastwood. Você só não verá saudades do comunismo.
Um dia, se Obama quiser mesmo unir o mundo, ele vai parar de dar tapas nas costas de ditadores ou protoditadores e verá que boa parte das respostas para os problemas mais complexos do mundo ainda estão logo ali, perto de casa, é só prestar atenção e abrir mão, ele próprio, de qualquer preconceito contra os loiros de olhos azuis, como Walt Kowalski.
Obama, meu caro, não conta pra ninguém, mas Clint Eastwood é que é o cara. Sue, a vizinha Hmong violentada pela gangue do primo, já entendeu.
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