Banânia
A obsessão totalitária
A Veja de hoje traz uma importante e corajosa matéria sobre "a obsessão de petistas de abolir a liberdade de expressão no Brasil." A leitura é importante para quem já entendeu e fundamental para quem finge que não entende, pelos mais diversos motivos.
Antes que se tente demonizar a Veja por isso, tática usual da tropa de choque petista, é importante lembrar que ela assumiu o mesmo tom que os grandes jornais do país em seus editoriais, do "direitista" Estadão até a "esquerdista" Folha de S. Paulo, todos foram unânimes em denunciar a tara fascisóide de uma parte do primeiro escalão do governo Lula nos seus estertores.
Sempre que vejo os "observadores ingênuos", como diz a matéria, tentando diminuir a sanha autoritária dessa turma que está no poder, lembro do divertidíssimo filme "Marte Ataca!" (Tim Burton, 1996), especialmente da Barbara Land (Annette Bening), uma "idealista" que resolveu esperar os marcianos de braços abertos. Se você não viu o filme pegue já, é diversão garantida.
Sem querer bancar o spoiler (o título do filme já entrega o que os marcianos vieram fazer aqui na Terra), é curioso ver como os alienígenas vão chegando e, a despeito de todas as evidências, as pombinhas da paz (o que inclui jornalistas e acadêmicos) se recusam a ver as reais intenções dos invasores, enquanto os únicos a querer combatê-los são os militares, vistos como paranóicos belicistas.
O discurso de Barbara Land:
A matéria da Veja pode ser lida aqui.
Nomes aos bois
Um editorial importantíssimo de hoje do Estadão, aquele jornal que o Zé Dirceu e o Sarney não gostam, fala que há no governo "um amplo esforço de liquidação do Estado de Direito e de instalação, no Brasil, de um regime autoritário", o que é uma acusação bastante grave, direta e sem meias palavras. Será que o Estadão agora também virou "histérico" ou está dando nome aos bois e defendendo a democracia brasileira de mais um ataque?
Leiam aqui o texto e concluam por vocês e, claro, preparem-se para que o jornal seja verbalmente apedrejado, ao menos por enquanto, por todos os lulistas radicais, tantos os que estão no armário quanto os que já saíram. O editorial faz comparações ao nazismo e seus eufemismos (com muita propriedade, aliás), outro pecado mortal para os que defendem o lulismo e patrulham ideologicamente seus adversários reais ou imaginários.
Vários analistas buscam suavizar a tentação autoritária dos petistas, a despeito de todas as evidências, o que tem exigido contorcionismos admiráveis na espinha dorsal de alinhados ou alugados. Li até que o Brasil nunca esteve ameaçado de um golpe comunista porque, afinal, nunca houve um golpe comunista bem sucedido, o que confunde intenção com competência. Não há como uma ditadura começar sem que vários inocentes úteis finjam que nada está acontecendo.
Se houver uma guinada totalitária num eventual (e funesto) governo da companheira Estela, o Brasil não poderá dizer que foi pego de surpresa.
O potencial de crescimento das análises isentas
A cada matéria ou post que leio dos "analistas isentos" dizendo o quanto José Serra corre perigo na próxima eleição, a partir dos resultados atuais das pesquisas, sou praticamente empurrado de volta para cama para dormir, macunaimicamente, repetindo "ai, que preguiça".
O único perigo real que José Serra corre, se a eleição fosse hoje, seria ganhar no primeiro turno, ao menos segundo os números. Mas o que são os números para Lula Press, para o "jornalulismo" e para as suas cheerleaders na blogosfera? Eles acreditam que a pré-candidatura tucana está com seríssimos problemas. Está mesmo? Até quando seu maior oponente interno no partido sucumbe ao seu desempenho nas pesquisas e sai do páreo os "analistas isentos" dizem também que é uma péssima notícia. E a turma da Confecom ainda acha que é pouco, acreditam que o jornalismo deveria ser ainda mais servil.
Por favor leia a Folha e depois tente entender (e me explicar) porque um pré-candidato que praticamente não aparece na TV tem os resultados que têm nas pesquisas, enquanto a candidata oponente, onipresente no noticiário francamente favorável, e que ainda representa "o cara", não está nem garantida no segundo turno, e mesmo assim o cenário é ruim pra ele.
Na verdade, nada disso é novidade. Em 2004, Marta Suplicy disputou a prefeitura da capital paulista contra o mesmo José Serra e tendo Lula como seu garoto-propaganda e seu principal avalista. A cidade de São Paulo estava mais vermelha do que verde e amarela em época de Copa do Mundo. Até hoje não se viu nada parecido, nunca uma campanha para prefeito foi tão avalassadora em todas as mídias, capitaneada por ninguém menos que Duda Mendonça. O PT considerava São Paulo uma "questão de honra", Marta (ainda casada com Eduardo Suplicy) era a candidata de um Lula pré-mensalão, quase imaculado, e com Franklin Martins comandando as "análises políticas isentas" nas Organizações Globo, assim como Nassif estava no conselho editorial da Folha e Paulo Henrique Amorim era o grande nome do jornalismo da Record. O que poderia dar errado? O resto é história.
Lembro perfeitamente das análises da época e de como José Serra estaria "enterrando" sua carreira política ao se oferecer para uma derrota certa para Marta Suplicy, que chegou até a se aliar a Paulo Maluf no segundo turno para tentar virar o jogo, o que os "analistas isentos", claro, não viram nada de errado. Foi nessa época que fui apresentado à tese do "potencial de crescimento", ou seja, quando um tucano está liderando as pesquisas e um petista está dentro da margem histórica do partido, apenas com os votos da militância, as pesquisas deixam de ter importância e o que vale é o tal "potencial de crescimento". Não se faz um jornalismo adesista sem uma dose cavalar de cara-de-pau.
Não estou dizendo que o governador de São Paulo, que oficialmente nem candidato é, tem uma eleição fácil pela frente, muito pelo contrário. Assim como Marta criou, com Duda Mendonça, o "CEU Saúde" em computação gráfica, o céu é mesmo o limite para Lula e seus áulicos, com sua capacidade quase ilimitada para vender castelos na Lua. Ninguém imagina mesmo um partido com as caracteríticas do PT entregando a rapadura sem fazer, no mínimo, todo terrorismo eleitoral de que se pode imaginar. O cenário é incerto, a eleição está longe, a oposição é titubeante e desunida, tudo isso conta, mas colocar Serra hoje em posição que não a de franco favorito tem muitos nomes, menos jornalismo.
Os chorões e a babá
Haja paciência para agüentar o chororô dos que reclamam da piada de Robin Williams, a babá quase perfeita, no programa do David Letterman. Vejam aqui.
A piada é ruim? É. E como tal deve ser tratada, uma piada ruim de um comediante que tenta algumas risadas num momento constrangedor da própria carreira (com duplo sentido). Letterman também é outro que sente o peso dos anos e ver os dois juntos, rindo da própria velhice, não deixa de inspirar até uma certa dose de piedade.
Só se sentirá incomodado com a piada quem aceitar que:
- Um comediante "gringo" não pode fazer piada que envolva o Brasil, mesmo com toda a superexposição do país na imprensa internacional, especialmente no primeiro mundo.
- Robin Williams fala sério e por todos os americanos e não por ele, apenas ele, que é um humorista criado na stand-up comedy e estava sendo entrevistado por outro pretenso humorista.
- Fomos pegos em flagrante, realmente não tínhamos condições de sediar os jogos e tivemos que utilizar algum subterfúgio para conseguir a indicação, o que passa um enorme recibo de insegurança e deficiência de auto-estima. Quem sabe que o Rio de Janeiro ganhou pelos próprios méritos até achará graça pela dor de cotovelo do humorista, nascido em Chicago, a primeira eliminada na votação, pela derrota.
- Pela primeira vez na história desse país qualquer comentário jocoso sobre o Brasil será considerado um incidente diplomático, já que os bajuladores do governo atual, especialmente na imprensa e nos blogs alinhados, desde o episódio Larry Rohter, dão sinais claros de que não têm qualquer disposição para críticas, das mais levianas às mais contundentes e verdadeiras.
Chicago tem 15,6 homicídios por cem mil habitantes, enquanto o Rio tem 38, ou seja, mais que o dobro. O Rio é uma cidade com graves problemas de violência e que recebe estrangeiros para turismo sexual, portanto a maneira de nos livrarmos em definitivo das piadas é, evidentemente, combatermos o crime com veemência e não os humoristas. Chicago já foi a terra de Al Capone, mas deu a volta por cima. Nós ainda estamos metralhando helicópteros da polícia.
Levantar o passado de Robin Williams como ex-dependente é uma forma abjeta de tentar desqualificá-lo e, suprema burrice, de levar a sério o que ele falou. Era uma piada, mas para muitos recalcados e xenófobos é preciso desenhar.

E não é que agora mensalão pode dar impeachment?
Antes tarde do que nunca, o Brasil descobriu que mensalão deve dar impeachment ao chefe da quadrilha. Imaginem se a moda pega?
Que Arruda pague por tudo que se prove que fez de errado ou deixou fazer em seu benefício. Lambaris políticos como ele são mais fáceis de serem pescados, não é novidade, assim como a onda de indignação seletiva que acossou os que ontem defendiam outros governos mensaleiros.
Espera-se que o chamado "Panetonegate" de Brasília seja mais um passo para a maturidade institucional de um país hiperpresidencialista no qual a cadeira de presidente confere poderes e recursos quase ilimitados ao seu ocupante.
Alguém imagina um governador de estado, por exemplo, fazendo campanha diariamente para seu sucessor como Lula faz para Dilma e a justiça eleitoral faz que não é com ela? Governadores e prefeitos têm perdido mandatos por motivos quase risíveis nos últimos tempos comparados a isso, vítimas de um rigor prussiano na interpretação da lei que não se vê quando o alvo é o "filho do Brasil".
Este blog deseja que mensaleiros paguem com seus mandatos e sua liberdade por seus crimes. Todos eles.
Cada país tem o Edison que merece
Edison Lobão e Thomas Edison simbolizam os países em que nasceram e construíram suas biografias. Edison Lobão inventando a lâmpada elétrica é tão improvável quanto Thomas Edison culpando Zeus, o deus do trovão, pelo colapso do sistema que apagou as luzes de 80% do PIB e 60 milhões de brasileiros durante sete horas na última terça.
No último filme "Duro de Matar", hackers planejavam apagar o país de Thomas Edison pela internet. Na chanchada bananeira "Duro de Engolir", que entrou em cartaz nesta terça, o país de Edison Lobão teria sido apagado por três raios que teimaram em cair no mesmo lugar, versão descartada por todos os meteorologistas, causando um estrago apenas comparável a três mandatos de Lula no mesmo país. É difícil decidir qual dos dois roteiros é mais inverossímil.
Os bobos da corte se apressaram em grasnar, aos gritinhos, "ô gente mal educada, estão chamando o apagão de apagão!" enquanto o Brasil era obrigado a engolir a tese estapafúrdia e ridícula de que existe um interruptor do país em Itaberá, pronto para desligar a chave geral da nona economia do planeta.
Depois de muitas trapalhadas e declarações desencontradas, até o ministro da justiça, como um dedicado comissário bolchevique, tentou riscar um fósforo e não deixar que a opinião pública sentisse o mau cheiro que saía das versões governistas e dos seus jornalistas e blogueiros de serviços, mandando a verdade para o raio que os parta.
Edison Lobão é umbilicalmente ligado à José Sarney. Assim como ele, Lobão foi presidente do senado. Sarney sucedeu Renan Calheiros, Lobão sucedeu Jáder Barbalho. Só o fato de colocar esses nomes numa mesma frase é motivo de constrangimento, mas hoje eles são a parte mais representativa daquilo que se chama "base aliada" do governo.
Sarney é o ex-presidente que, após desmoralizar e desorganizar o Brasil durante a "década perdida", nos legou a moratória da dívida externa, a manutenção da reserva de informática, a escassez de produtos nas prateleiras, o boi sumido no pasto e a maior hiperinflação da história, deixando uma terra arrasada que acabou sendo assumida por outro companheiro atual, Fernando Collor. Hoje Sarney só se segura na presidência do Senado porque foi blindado pela tropa de choque de Lula e é preciso ser muito desavisado ou inocente para creditar sua permanência a uma opção pela "governabilidade", eufemismo preferido pelos que não aceitam uma oposição real e preferem um legislativo no cabresto, agindo como uma mera formalidade para se dar um verniz democrático a um hiperpresidencialismo coronelista, messiânico e bufão.
Quando se dizia que o governo Lula precisava de um choque de gestão, Dilma Roussef, ministra das Minas e Energia, assumiu a Casa Civil, o ministério mais político do governo, mas o que viu foi um choque de bravatas. No discurso em que Edison Lobão tomou posse do ministério, declarou, num dia chuvoso em Brasília, que poderia chover à vontade: "não haverá mais apagão". Há duas semanas, Dilma repetiu a frase. Num país sério, com imprensa livre e oposição de verdade, eles teriam que se explicar.
Os mesmos burocratas do setor elétricos planejam agora mudar todas as tomadas do país para um novo "padrão", criando uma das jabuticabas mais caras da história. Thomas Edison criou a lâmpada elétrica, mas é provável que algum burocrata já esteja criando uma fábrica para fornecer as novas tomadas. A lâmpada de Thomas Edison tirou o mundo da Era do Vapor. As tomadas dos burocratas e os raios de Dilma nos manterão nas trevas.
Lobao
As velhinhas de Taubaté do petismo deveriam se envergonhar: caímos ainda mais no IDH.
O Brasil acaba de perder cinco posições no ranking do IDH, chegando a um vergonhoso 75o lugar. Segundo o estudo, temos níveis subsaarianos de mortalidade infantil, criminalidade galopante e baixa expectativa de vida.
O mundo teve o maior crescimento econômico da história nos últimos anos e os neoestatistas e narco-bolivarianos resolveram creditar isso ao governo Lula, esquecendo que o Brasil só resistiu ao tsunami financeiro porque rasgou o programa histórico do PT e deu mais dois mandatos à política econômica tucana, colocando inclusive um tucano na presidência do Banco Central durante todo o governo. O que é petista em estado puro, que é a tal "política social", é um desastre exposto em números incontenstáveis. Já disse aqui e repito: o governo Lula é um Moonwalk político, fazendo o Brasil andar pra frente aos olhos dos trouxas enquanto, na verdade, anda pra trás.
Nestas horas, quando vejo o Barretão dizendo que rodou o filme do Lula "para ganhar dinheiro", respeito sua clareza de objetivos. Mas o que dizer dos que elogiam Lula sem nem ganhar uma verba de patrocínio, um financiamento de uma ONG ligada ao partido ou um empreguinho numa estatal? Ser conivente com tudo isso deveria, ao menos, render algumas noites de insônia pra essa turma.
A lei do impedimento
O Senado brasileiro decidiu que, para ser ministro do Supremo Tribunal Federal, uma espécie de Olimpo das instituições democráticas do país:
- Ter pouca idade não é impedimento
- Ter apenas o bacharelado em direto, sem mestrado ou doutorado, não é impedimento
- Nunca ter publicado livro, tese ou ter qualquer outra contribuição ao saber jurídico não é impedimento
- Ter sido reprovado duas vezes no concurso para juiz não é impedimento
- Ter atuado seguidamente como principal advogado do presidente da república que o indicou não é impedimento
- Ser advogado do partido que está no poder e ser um militante deste partido não é impedimento
- Ser historicamente ligado e ter defendido José Dirceu, a figura mais polêmica e controvertida do Brasil e que, em breve, será julgado nesta corte, não é impedimento
- Ter condenações por improbidade, mesmo que em primeira instância, não é impedimento
- Ser o advogado-geral da União e depois ir para a corte que vai decidir as questões mais importantes que envolvem a própria União não é impedimento
Fica a dúvida: o que então impede alguém de ser ministro do STF?
Nemo iudex in causa sua
Edílson Pereira de Carvalho recebeu mês passado uma notícia e tanto: a justiça de São Paulo encerrou a ação penal, em que era réu confesso, sobre a manipulação de resultados de diversas partidas de futebol, um escândalo desvendado pela revista Veja em 2005 e que ficou conhecido como o da "Máfia do Apito". Em sua defesa, Edílson alegou que participou do esquema porque precisava do dinheiro para saldar uma dívida pessoal. Então tá.
O ex-juiz, ao ser descoberto, fez o previsível Road Show por programas de entrevistas, cobrando cachês, e também ganhou dinheiro com a venda de livros. Foi convidado para ser comentarista de futebol numa rádio, mas recusou. Seu golpe foi um crime sem castigo e, até agora, bastante lucrativo.
Com seu jeitão belicoso e arrogante, Edílson deu declarações em que afirmava que o convite do dinheiro fácil era irrecusável e que, se não tivesse sido descoberto, estaria dando o mesmo golpe até hoje. Entre uma frase de efeito e outra, disse que juízes manipulam resultados pelos mais diversos motivos, não necessariamente por dinheiro. Basta não ir com a cara de um jogador, por exemplo, para dar um jeito de expulsá-lo.
A história de Edílson Pereira de Carvalho envergonha um país cujo judiciário ainda sofre pelo despreparo ou voluntarismo de muitos juízes, por um arcabouço jurídico arcaico e muitas vezes ideologizado, por um sistema processual caótico e contraditário, uma Constituição de inspiração socialista e parlamentarista numa democracia presidencialista, mas que atualmente se arvora a reformar decisões do país que é berço do direito como conhecemos no Ocidente, a Itália.
Juízes podem falhar por diversos motivos, mas o mais insidioso, abominável e asqueroso é a “causa própria”. Como diria outro juiz de futebol, a regra é clara, e desde os tempos do latim: Nemo iudex in causa sua, ou “nenhum juiz deve julgar em causa própria”.
Tudo isso para lembrar o inacreditável precedente que o Brasil está prestes a abrir ao colocar um menino de recados de José Dirceu para a única corte que pode fazer com que o ex-ministro pague pelos crimes do mensalão, o Supremo Tribunal Federal.
Lula construiu boa parte de seus discursos e argumentos usando metáforas futebolísticas. Com a indicação do seu juiz particular para a suprema corte, atingiu o estado da arte.
Fernando Lugo ou Mikhail Khodorkovsky?
O subjornalismo que se alimenta das sobras atiradas das mesas do Planalto investiu na desqualificação de Lina Vieira por ser casada com Alexandre Firmino de Melo Filho, um ex-ministro interino do governo anterior (ele ocupou a pasta por alguns meses). Na esteira da saída de Lina, o Ministro da Fazenda exonerou a chefe de gabinete Iraneth Weiler e o assessor Alberto Amadei, que haviam cometido o crime de confirmar a história.
Duvido que qualquer leitor do Pandorama desconheça o gravíssimo risco para a democracia quando a receita federal de um país é usada com fins políticos, quer seja para aliviar (ou "agilizar"), quer seja para perseguir inimigos, para municiar juízes que ordenam prisões espalhafatosas ou instaurar processos kafkianos contra eles.
Quando o dono da maior fortuna da Rússia, o jovem e carismático empresário Mikhail Khodorkovsky, revelou ter aspirações políticas, o governo Vladmir Putin encontrou um desvio na sua contabilidade, mandou prendê-lo e congelar seus bens, o que pulverizou seu patrimônio e enterrou suas pretensões (na foto abaixo, Khodorkovsky enjaulado no julgamento). Foi uma lição realmente dura de como é ser empresário em países bolivarianos ou bolcheviques, mas que muitos financiadores de campanha daqui ainda não entenderam.
Não pretendia perder um minuto com essa bobagem do marido da Lina Vieira quando chega a notícia de que doze integrantes da cúpula da Receita Federal pediram demissão em solidariedade à ex-secretária e contra a ingerência política no órgão. Cinco deles eram superintendentes regionais.
Utilizando o mesmo critério usado pelo pessoal do subjornalismo e aceito pelas velhas de Taubaté do petismo, Alexandre Firmino de Melo Filho é o nosso Fernando Lugo!
Se todo o episódio é uma invencionice e Lina só foi uma porta-voz das ordens do companheiro, a serviço de interesses políticos, como imaginar que tantos servidores da direção da Receita Federal pediram demissão em bloco e alegando o mesmo motivo, ou seja, ingerência política excessiva e insuportável no órgão?
Ou Alexandre Firmino de Melo Filho é o maior garanhão de Brasília ou precisamos, com urgência, chamar Mikhail Khodorkovsky para contar sua história por aqui.
UPDATE: Já são 60 os servidores que deixaram a receita. Seria mais um atestado do incrível poder sexual de Alexandre Firmino de Melo Filho? Aguardamos a nova teoria do subjornalismo para tentar explicar a situação. Quando o IPEA é aparelhado, temos um abalo na credibilidade do país. Quando a receita é aparelhada, temos uma ditadura.

Dez de Agosto
O Luiz Ryff fez um post curto, com cara de twitt, sobre o dia de ontem em que o PT contabilizou a saída de Marina Silva e Flávio Arns enquanto sua bancada salvava o pescoço de José Sarney (e “contabilizar”, como demonstrou Delúbio Soares, não é o forte do partido). Vejam o que Ryff escreveu aqui.
O verdadeiro dia deste mês a ser lembrado quando alguém for contar a história do PT e do governo Lula não é este, mas o 10 de agosto de 2005, este sim o dia que poderia ter dado uma guinada na história do Brasil mas que acabou apenas pavimentando o caminho para que hoje Lula, Renan Calheiros, Fernando Collor e José Sarney criassem um colegiado para governar o país com a ajuda de obreiros dedicados como Wellington Salgado, Almeida Lima, Paulo Duque, Ideli Salvatti e a benção de Edir Macedo.
Num dia em que se lembrava 10 anos da morte de Florestan Fernandes, um dos símbolos da primeira formação do PT, o publicitário Duda Mendonça apareceu sem ser convocado na sessão da CPI dos Correios em que sua sócia, Zilmar Fernandes, seria ouvida. O que aconteceu naquele sessão, até hoje, é difícil de acreditar.
O marqueteiro de Lula pegou o microfone e disse, em cadeia nacional e para quem quisesse ouvir, que os milhões de dólares destinados ao pagamento de seu trabalho foram entregues numa conta no exterior, num paraíso fiscal nas Bahamas, com dinheiro de origem desconhecida. A transação teria sido operacionalizada por outro publicitário, Marcos Valério. Ninguém até hoje negou que isso realmente tenha acontecido.
O presidente do senado, na época, era ninguém menos que Renan Calheiros. Ele se mostrou, para dar ares ainda mais surrealistas ao momento, muito preocupado: "o depoimento [de Duda Mendonça] nos remete a um cenário pantanoso de ilegalidade, incompatível com a legislação brasileira. Sonegação fiscal, evasão, conta no exterior, são coisas que precisam ser investigadas o mais rapidamente possível. Nada pode ficar sem resposta."
Pela lei eleitoral vigente no Brasil, este fato implicaria não só na nulidade da eleição presidencial de Lula como também na cassação do registro partidário do PT, a extinção formal do partido. Seria o fim da linha para um governo que depois, e pelo que fez nesta época, foi apresentado numa ação criminal pelo procurador-geral da república como uma “quadrilha”, uma “sofisticada organização criminosa”.
Enquanto Duda Mendonça mostrava ao Brasil um pouco do modus operandi petista, na Câmara 21 deputados declararam que estavam deixando o partido e pelo menos seis choraram: o ex-líder Walter Pinheiro (BA), Chico Alencar (RJ), Doutor Rosinha (PR), Iara Bernardi (SP), Luiz Bassuma (BA) e Orlando Desconsi (RS). O senador Arthur Virgílio declarou: "governo Lula acabou oficialmente hoje". Só que neste dia o que acabou foi uma geração inteira de brasileiros.
O impeachment de Lula teria sido ainda mais didático ao Brasil do que o de Fernando Collor, mas optamos por seguir em frente e não sermos assim tão literais em relação à lei e ao estado democrático de direito, essa frescura burguesa. Demos os ombros e seguimos em frente. Um país é fruto de suas escolhas.
O dia 10 de agosto é também o dia de São Lourenço, um diácono que viveu no século III em Roma. O santo era o administrador do caixa da Igreja e cuidava pessoalmente da distribuição do dinheiro arrecadado aos pobres. Quando o imperador Valeriano mandou que revelasse onde estavam escondidas as riquezas dos cristãos, São Lourenço levou à sua presença um grande número de viúvas, órfãos, doentes e pobres dizendo que aquele era o verdadeiro tesouro da Igreja.
O imperador, indignado com a insolência, mandou assar o santo numa grelha em brasa e ele morreu queimado lentamente. A partir de 2005, o dia 10 de agosto passou a ser também dos que cozinham a opinião pública em banho-maria, usam os pobres para seu próprio enriquecimento e ainda são canonizados por isso.
Lula Marinada
Para quem acha que aqui só se fala de política, segue uma receita de Lula Marinada, criada pelo craque István Wessel.
Recomendo servir quando você estiver recebendo jornalistas em casa, afinal lula é o prato preferido deles há mais de 25 anos e não custa oferecer a iguaria com o tempero do momento. Sirva com muita salada verde, para dar um tom mais ecológico, acompanhada de sucos de frutas amazônicas.
Não mudei, omiti ou alterei uma única vírgula da receita original de István Wessel, que segue abaixo, mas reconheço que há uma parte que é quase impossível de se fazer, que é separar o corpo da lula dos tentáculos. Quem conseguir realizar a proeza terá a gratidão eterna do povo brasileiro.
Bom apetite!
Ingredientes
2 kg de lula fresca inteira, (ou 1,5 kg de lula congelada e limpa)
1/4 xícara de suco de limão
1 xícara de cebola roxa, picada
3/4 xícara de erva-doce ou salsão, picado
3 dentes de alho amassados
1/2 xícara de folhas de salsinha, picadas
1/4 xícara de folhas de manjericão, picadas
3/4 xícara de azeite extravirgem
1/4 xícara de vinagre de vinho branco
sal e pimenta-do-reinos, moída na hora e a gosto
6 tomates maduros, tamanho médio
Preparo
Lave a lula em água corrente fria, retire a membrana que a recobre e, com um corte, separe o corpo dos tentáculos. Limpe-o por dentro. Em duas panelas de água, coloque 1 colher de sopa de limão e um pouco de sal em cada uma e ferva. Cozinhe os tentáculos de lula numa panela e os corpos na outra, para os primeiros ficarem bem vermelhos e os outros, brancos. Lembre-se de que a gente come primeiro com os olhos. Cozinhe até que fiquem tenros (cerca de 20 minutos). Escorra, passe por água fria e corte a lula em anéis. Numa tigela, misture a cebola, a erva-doce, o alho, a salsinha, o manjericão, o azeite, o vinagre, o limão restante, sal e pimenta. Mexa bem e acrescente os corpos e os tentáculos. Cubra e leve à geladeira por, no mínimo, 6 horas e no máximo, 2 dias, mexendo de vez em quando. Escorra o molho da marinada antes de servir. Se quiser servir a lula nos tomates, corte-os ao meio, retire as sementes e recheie. O tempo de cozimento da lula é rápido, cerca de alguns minutos. Se passar disso, a lula sai do ponto e fica borrachuda.
Collor imortal
Se Sarney é membro da Academia Brasileira de Letras, por que um de seus marimbondos de fogo, Fernando Collor de Melo, não pode também ser um imortal?
No próximo dia 22, o ex-presidente será eleito para a Academia Alagoana de Letras, na condição de candidato único para a vaga. Por pura ignorância minha, desconheço qualquer contribuição do futuro acadêmico para as letras de Alagoas e do Brasil, especialmente num estado que deu ao país Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda e Ledo Ivo.
Num mundo em que Sarney e Collor são imortais, a vida eterna até que não parece um cenário tão desagradável.

Os cães ladram e a caravana passa
Enquanto o Brasil fica hipnotizado com as brigas no Senado, como se acompanhasse um reality show de quinta categoria, duas notícias de hoje passaram despercebidas.
A primeira é que o ministro da justiça (com minúscula mesmo) e comissário bolchevique Tarso Genro não viu censura na decisão judicial contra o Estadão, leiam aqui.
A segunda é que Lula disse a Uribe que o combate ao narcotráfico e às FARC na região não deve contar com ajuda externa (leia-se EUA), dando a entender que prefere nesta tarefa a eficiência e rigor dos companheiros bolivarianos e cocaleiros. Ele levantou suspeitas sobre o acordo com uma severidade que, por exemplo, não se viu em relação à eleição do companheiro Mahmoud Ahmadinejad no Irã. Leiam aqui.
Eles não transformam o Brasil na Venezuela porque não podem, não porque não querem. Mas se todo mundo está preocupado com os xingamentos no Senado, bom divertimento.
Os meios e o fim
Fernando Collor de Mello foi estupidamente grosseiro, com seu estilo canastrão de "coroné" prestes a chamar seus jagunços para ordenar um corretivo no insolente Pedro Simon? Claro que foi. Collor é uma figura incômoda, uma presença constrangedora do parlamento e um eco de um Brasil retrógrado que parecia dormir nos livros de história.
Mesmo assim, é curioso ver como muitos brasileiros morrem de medo do embate aberto de posições políticas, mesmo na casa que é feita para isso, o Congresso Nacional. O Legislativo é um poder que confere imunidade parlamentar aos seus membros exatamente para que possam ser a voz da sociedade, de muitas das suas indignações e também das suas esperanças, sem as amarras judiciais dos crimes de opinião. Parlamento existe para que nossos representantes possam "parlar" em plenário, no púlpito, com microfones abertos e não para acordos de bastidores, de reunião de líderes ou para mensalões e compra de apoios. O problema da fala de Fernando Collor é de conteúdo, não necessariamente de forma. A causa que defende é abjeta, mas sua veemência anda em falta nos discursos e debates daquela casa.
O lulismo, gestado no sindicalismo, destruiu o pouco que ainda restava de debate político no Brasil. Sua capacidade de comunicação, mesmo que vulgar e falaciosa, cínica e embusteira, só rivaliza com seu aliado Edir Macedo na capacidade de transformar discurso em homilia. Com sua pregação e suas bravatas, o lulismo vai tangendo o rebanho enquanto distribui esmolas, com seus companheiros na imprensa tratando seus defeitos e erros como meros percalços na construção da utopia socialista. O símbolo desse triste momento da imprensa é Luís Fernando Veríssimo, a Velhinha de Taubaté petista, e sua frase insuperável, sobre as vaias que o presidente recebeu no Maracanã em 2007: "Lula não deve ser vaiado nem quando merece".
Essa busca insana e covarde pelo consenso tem seu ícone: Aécio Neves. Há anos o governador mineiro tenta se equilibrar entre o oficialismo e algum discurso oposicionista, cada vez menos audível. O político playboy, o dândi com mandato, criou o termo "pós-Lula" para simbolizar o que acredita ser sua proposta para assumir o comando do Brasil, criando a figura do oposicionista que não se opõe, apenas pede polidamente para entrar enquanto se aquece na lateral do campo, sem explicar à torcida porque deveria substituir o titular do time. Como disse Churchill sobre os defensores da política de apaziguamento em relação aos nacional-socialistas, "entre a desonra e a guerra escolheram a desorna, e terão a guerra."
Ontem o parlamento teve um debate entre um desqualificado e um bufão, mas que deveria nos lembrar que parlamentares devem polemizar e não fazer piqueniques e convescotes, muito menos forjar consensos com a cola do fisiologismo. As propostas antidemocráticas e ditatoriais que pedem o fim do Senado servem ao menos para mostrar que, se for para apenas carimbar as decisões do executivo, após trocas de favores e benesses, se for apenas para torrar dinheiro em atos secretos, desperdícios e contratações de parentes, o parlamento é apenas uma irrelevância cara e inútil. Quando o Congresso deixa de ser um poder independente ele deixa de ser um poder.
Em homenagem a um dos poucos momentos recentes de ira santa no Congresso, revejam o que falou o deputado Fernando Gabeira ao ex-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti.
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