A obsessão totalitária
A Veja de hoje traz uma importante e corajosa matéria sobre "a obsessão de petistas de abolir a liberdade de expressão no Brasil." A leitura é importante para quem já entendeu e fundamental para quem finge que não entende, pelos mais diversos motivos.
Antes que se tente demonizar a Veja por isso, tática usual da tropa de choque petista, é importante lembrar que ela assumiu o mesmo tom que os grandes jornais do país em seus editoriais, do "direitista" Estadão até a "esquerdista" Folha de S. Paulo, todos foram unânimes em denunciar a tara fascisóide de uma parte do primeiro escalão do governo Lula nos seus estertores.
Sempre que vejo os "observadores ingênuos", como diz a matéria, tentando diminuir a sanha autoritária dessa turma que está no poder, lembro do divertidíssimo filme "Marte Ataca!" (Tim Burton, 1996), especialmente da Barbara Land (Annette Bening), uma "idealista" que resolveu esperar os marcianos de braços abertos. Se você não viu o filme pegue já, é diversão garantida.
Sem querer bancar o spoiler (o título do filme já entrega o que os marcianos vieram fazer aqui na Terra), é curioso ver como os alienígenas vão chegando e, a despeito de todas as evidências, as pombinhas da paz (o que inclui jornalistas e acadêmicos) se recusam a ver as reais intenções dos invasores, enquanto os únicos a querer combatê-los são os militares, vistos como paranóicos belicistas.
O discurso de Barbara Land:
A matéria da Veja pode ser lida aqui.
Uma lição de democracia
O eleitorado de Massachusetts, estado tradicionalmente democrata, colocou um republicano na simbólica cadeira de Ted Kennedy no dia do primeiro aniversário de Barack Obama como presidente e, de quebra, tirou a "supermaioria" do partido no senado. Um terremoto político de grandes proporções.
O senador eleito Scott Brown, um ilustre desconhecido até agora, é um republicano típico: tenente-coronel, casado, pai de duas filhas, esportista, cristão e conservador (no sentido americano, claro). Ele saiu bem atrás nas pesquisas, mas fez uma campanha impecável e virou o jogo de uma maneira realmente empolgante. Para se ter uma idéia da complexidade da tarefa de Scott Brown, apenas 12% dos eleitores do estado de Massachusetts se declaram republicanos.
Pesquisas mostram que o eleitorado de Massachusetts não deixou de simpatizar com o presidente, mas a mensagem aos medalhões democratas no Congresso, como Nancy Pelosi, foi clara: a eleição de Barack Obama não é um cheque em branco para seu partido, especialmente para a tão polêmica reforma do sistema de saúde.
Para muitos democratas e seus simpatizantes na grande imprensa, a derrota de John McCain, candidato de George W. Bush, um presidente impopular no final do mandato, era um sinal de que o povo americano passava também a rejeitar a agenda dos conservadores, tão identificada com o partido republicano, de um país que sabe suas prioridades quando o assunto é segurança nacional, liberdade individual ou o tamanho e a qualidade dos gastos do governo. Ontem estes democratas receberam uma dura mas necessária e oportuna lição.
Este ano, após a vitória de Obama, muitas lideranças democratas no Congresso começaram a agir com tamanha arrogância e soberba que o eleitor percebeu o erro de dar tanto poder a um partido apenas e começou, com muita sabedoria, a equilibrar o jogo. Só em repúblicas de bananas um governo ter o controle total do Congresso é visto como algo positivo, ainda mais quando a moeda de troca é exatamente dinheiro público, ministérios e diretorias de estatais que furam poço. Pior ainda é quando a imprensa local diz que tudo se justifica pela busca da "governabilidade". Temos muito o que aprender.
Nomes aos bois
Um editorial importantíssimo de hoje do Estadão, aquele jornal que o Zé Dirceu e o Sarney não gostam, fala que há no governo "um amplo esforço de liquidação do Estado de Direito e de instalação, no Brasil, de um regime autoritário", o que é uma acusação bastante grave, direta e sem meias palavras. Será que o Estadão agora também virou "histérico" ou está dando nome aos bois e defendendo a democracia brasileira de mais um ataque?
Leiam aqui o texto e concluam por vocês e, claro, preparem-se para que o jornal seja verbalmente apedrejado, ao menos por enquanto, por todos os lulistas radicais, tantos os que estão no armário quanto os que já saíram. O editorial faz comparações ao nazismo e seus eufemismos (com muita propriedade, aliás), outro pecado mortal para os que defendem o lulismo e patrulham ideologicamente seus adversários reais ou imaginários.
Vários analistas buscam suavizar a tentação autoritária dos petistas, a despeito de todas as evidências, o que tem exigido contorcionismos admiráveis na espinha dorsal de alinhados ou alugados. Li até que o Brasil nunca esteve ameaçado de um golpe comunista porque, afinal, nunca houve um golpe comunista bem sucedido, o que confunde intenção com competência. Não há como uma ditadura começar sem que vários inocentes úteis finjam que nada está acontecendo.
Se houver uma guinada totalitária num eventual (e funesto) governo da companheira Estela, o Brasil não poderá dizer que foi pego de surpresa.
Chavez acusa americanos de invasão do Haiti
O coronel acaba de passar à frente e liderar com folga o triste campeonato de quem faz a declaração mais abominável sobre o flagelo do povo haitiano, tentando macular a imagem e criar constrangimentos a quem hoje mais socorre aquele país destruído e entregue ao caos. Veja a matéria do G1 com a declaração de Hugo Chávez aqui.
Alguém em seu juízo perfeito pode imaginar Barack Obama tramando a invasão do país mais pobre da região e sem nada mais a oferecer ao "invasor" do que uma terra arrasada e seus escombros, repleta de mortos, feridos, doentes, desabrigados e saqueadores? A declaração do coronel equivale moralmente a ver um bombeiro salvando uma moça de um incêndio e gritar: "esse sujeito quer é transar com ela!".
A atuação humanitária dos EUA é digna de todos os aplausos e deveria servir de exemplo para o mundo e de reflexão interna ao país que mais gasta dinheiro com a cada vez mais inoperante, inchada e ideologicamente estúpida Organização das Nações Unidas, talvez a maior e mais cara ONG do planeta. O trabalho de reconstrução do Haiti está só no início, há confusão e desordem, mas alguém tem que fazer o trabalho que a maioria das nações simplesmente não faz ou faz timidamente, apenas para dar uma satisfação ao eleitorado local.
Como lembrei no post "Pinheiro Guimarães, da Alemanha à Venezuela", o guru de Hugo Chávez é um brasileiro. Que tipo de conselho ele está dando ao seu pupilo? O que se sabe é que seu outro aluno, Celso Amorim, também anda rangendo os dentes para os EUA no Haiti, nos colocando na mais ridícula companhia do planeta.
Deus persegue os negros?
Acabo de receber por email a charge feita por Ziraldo sobre a tragédia do Haiti que dá a entender que Deus (dos cristãos?) teria algum tipo de perseguição contra os negros.
Como dito no post anterior, O Frei Betto da extrema direita, alguns fundamentalistas de miolo mole associaram a tragédia, de proporções bíblicas, aos cultos de origem africana do Haiti, um suposto insulto ao Deus cristão. Mas e essa charge, o que sugere? Não seria exatamente a mesma idéia, a vingança de Deus sobre o povo haitiano, só que pela ótica do negro?
O Velho Testamento é repleto de passagens em que o Deus dos judeus e dos cristãos é capaz de dar a um povo flagelos como as Pragas do Egito, mas ao ver esse desenho, que fala pouco e sugere muito, fiquei pensando: quantos negros havia nas praias asiáticas atingidas pelo tsunami em 2004, matando quase 300.000 pessoas? E nas Filipinas, país cristão, sempre acossado por incontáveis tragédias naturais?
Na Idade Média, a peste negra (sem trocadilhos) devastou 1/3 da população do continente, algo como 75 milhões de pessoas, talvez a maior tragédia da história da humanidade. Quantos europeus da época eram negros? Quantos negros foram soterrados pelas lavas do Vesúvio em Pompeia? Quantos estavam no Titanic? E no World Trade Center? Precisa continuar?
E Pelé, Obama, Tiger Woods, Michael Jordan e Will Smith, como lembrou por email meu amigo Maurício ao ver a charge, são também perseguidos por Deus? Quantos negros foram escravizados no Egito ou estavam nos Campos de Concetração nazistas? Quantos foram mortos pelos maiores genocidas da humanidade, Stálin e Mao?
Jesus Cristo, aliás, não era exatamente um branco caucasiano, certo? Será que um Deus preconceituoso contra os negros mandaria seu próprio filho na forma de um judeu do Oriente Médio, nascido quase na África? O próprio homo sapiens não se originou da África?
Falando da charge, há uma clara referência ao próprio Cristo, pouco antes da morte na cruz, dizendo "Pai, por que me abandonaste?", uma frase cuja interpretação gera polêmicas entre os estudiosos desde sempre. O que Jesus quis dizer com isso? Houve um erro de tradução das Escrituras? Jesus se sentiu mesmo abandonado pelo próprio Pai? Ou estaria o negro da charge buscando a mesma redenção divina, no momento final, como o "bom ladrão" crucificado que pediu a Jesus que se lembrasse dele na outra vida, ouvindo como resposta: "em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso"?
A tragédia do Haiti tem gerado algumas reações das mais estapafúrdias, por isso prefiro citar outra frase do filho de Deus na cruz: "perdoai Senhor, porque eles não sabem o que fazem".
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